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"Você não pode ensinar nada a um homem; você pode apenas ajuda-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo."
Galileu Galilei

14 de dezembro de 2009

CARNE SECA

Hipocritamente durmo na madrugada enquanto bois são abatidos nos frigoríficos da manhã.
Durmo hipocritamente sem ver o sangue que escorre pelas calhas da noite e começam a
subir, ondeando, pelos pés de minha cama.
Durmo sem ver o olhar do boi no matadouro. O olhar. O berro. A morte.
Tapo os ouvidos, mas os grunhidos dos porcos rasgam o pêlo da noite.
O sangue espirra do curral da madrugada e homens ávidos vão desenrolando as tripas da fera, que estrebucha, para converte-las em linguiça que hipócrita e porcamente me serão servidas.
Uma vez contaram-me como se matam gansos na França.
Os bois, a gente pode pensar, levam aquela pancada súbita na cabeça e desmontam sua carcaça no ladrilho.
Mas os gansos são cevados, como se cevam os frangos.
Os frangos sabem que vão morrer nos campos de concentração vigiados pela SS dos
frigoríficos. Mas os gansos conhecem o martirolégio dos santos e penitentes.
Começam a engordá-los. Ou, pior: cevá-los forçadamente.
Os frangos, sabemos, são alimentados também artificiosamente; deixam aquelas luzes
acesas noite e dia, e eles comendo, bicando, comendo, bicando os segundos, bicando os minutos numa engorda rápida e lucrosa.
Mas os gansos são agarrados á força. E então começa-se, por um funil, a socar para dentro deles a ração.
Um funil ou moedor para que a comida já vá direta para dentro, chegue mais rapidamente ao fígado que, em forma de patê, colocarei em minha mesa no fim de semana na casa de
campo. Mas não é sobre gansos que estou escrevendo especificamente e sim sobre a carne que para mim se prepara na escuridão hipócrita de minha fome.
Na infância de todo mundo (pelo menos no interior e antigamente) havia sempre uma galinha que alguém começou a matar na cozinha. E foi cortar o pescoço dela, tendo asas presas sob os pés contra o ladrilho, e, de repente ela se soltou. Se soltou e saiu com o pescoço
pendurado jogando sangue pelas paredes até expirar no degrau para o quintal.
Há quem vá aos restaurantes especializados em peixes, porque quer ver o peixe vivo, o peixe que vai escolher no aquário. E aponta-lhe o dedo, quero aquele ali, e se senta à mesa, enquanto na cozinha jogam lagostas vivas na água fervente e a champanha espuma sua
indiferença na taça dos ricos.
Carne deveria dar em árvore.
Mas um dia me mostraram uma árvore que sangra. Meu caseiro espetava-lhe um prego, arame ou qualquer instrumento torturante, e lá vinha aquela gota vermelha. Não faz muito descobriram que os vegetais também são seres humanos. Já ouviram tomate chorar e laranjas terem vertigens quando colheram uma ao lado da outra na lâmina da morte.
E a esta hora estão pegando leitõezinhos que, assados, ainda ganham sobre o nariz uma rodela de laranja, e aqui e ali azeitonas e outros adereços. E hipocritamente me assento numa churrascaria. Bebo um chope junto com a caipirinha e peço voluptuosamente uma picanha. Por que não, um churrasco completo? Sim, aceito. E lá vem os cadáveres eufóricos, correndo para o meu prato: tomo a faca, empunho o garfo como um guerreiro tártaro. E como. E como. E rumino. E mastigo. E gosto. O sangue da vítima vai se misturando ao meu civilizadamente. Barbaramente.
O pior antropófago é o que tem remorsos de sobremesa.

Julho de 2007.
Affonso Romano de Sant'Anna
Escritor brasileiro consagrado, foi cronista no Jornal do Brasil (1984-1988) e do jornal O Globo até 2005. Atualmente, escreve para os jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense.
http://bve.cibec.inep.gov.br/Biblioteca.htm (Biblioteca Virtual de Educação)

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QUEM LÊ SABE MAIS .

05 / 08 / 2010 Arqueólogos encontram complexo subterrâneo em pirâmide no México
http://www.ambientebrasil.com.br/

Um complexo subterrâneo foi localizado sob a pirâmide de Quetzalcoatl, no sítio arqueológico de Teotihuacán, conforme divulgou o Instituto Nacional de Antropologia e História mexicano (INAH).

A construção, composta por um túnel, daria acesso a uma série de galerias sob o templo dedicado a uma das principais divindades astecas, com aspectos de serpente e de pássaro.

Segundo os arqueólogos, a entrada do complexo estaria há 12 metros de profundidade e foram necessários oito meses de escavações para descobri-la.

Os especialistas acreditam que o local pode conter os restos de governantes da antiga cidade no centro do México.

A entrada do túnel teria sido fechada há 1,8 mil anos pelos habitantes e a estrutura é anterior à construção do tempo de Quetzalcoatl. O local recebia oferendas diversas como ornamentos fabricados com conchas, jade, ardósia e obsidianas.

Ao todo, o complexo teria 100 metros de profundidade. Descoberto em 2003 por Sergio Gómez e Julie Gazzola, o complexo só pode ser explorado após sete anos de planejamento e captação de recursos financeiros. A equipe que realizou o trabalho é composta por 30 profissionais.

– (Fonte: G1)

" FRASEANDO "


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